Lina, bordadeira de tecidos, papéis e palavras
Bordando aqui, bordando ali, a vida foi se constituindo.
Avós bordando de um lado e do outro. D. Zuleika era costureira, fazia vestidos de noiva, madrinhas, roupas comuns e também sabia bordar. Minha mãe, quando pequena, ajudava. Acabou aprendendo o ofício, apesar de nunca ter gostado, nem seguido. D. Dina bordava a mão e a máquina. Desde que vim ao mundo, preparou meu enxoval que devia estar pronto aos meus 15 anos, como era de costume na aldeia onde nasceu.
Minha mãe me ensinou a bordar desde muito cedo, ainda menina e fez o mesmo com minha filha. Eu tinha um certo orgulho do meu bordado. Na minha casa, todos tinham muita habilidade para desenho e pintura, mas eu achava que não tinha esse dom. Acreditava que não era boa com as mãos, até hoje em dia essa crença me acompanha. Pensava que, na verdade, só tinha cabeça, só ela funcionava bem. Com isso estudava loucamente! Sigo estudando até hoje, julgo que sou realmente boa nisso e me satisfaz bastante, entretanto não totalmente.
Num determinado momento o bordado me servia de processo meditativo (hoje ainda é assim). Utilizava também como forma de presentear. Sempre gostei de agraciar as pessoas com produções minhas, pessoais, feitas especialmente para aquela pessoa. Muitas amigas tem coisinhas com seus nomes bordados em ponto de cruz. Bebês recebiam babadores e toalhinhas. Adorava esse meu empenho.
Para Ian pouco bordei, estava na faculdade, entrando no Internato, numa gravidez não programada. Mas minha mãe bordou muito. Fez um quadro lindo de uma casa de ursinhos para colocar no quarto dele e um enxoval lindo para o meu bebê. Depois que ele se foi, tudo foi guardado e fiquei muito tempo sem bordar.
Na época da Residência Médica, o bordado retornou. Queria fazer umas almofadas novas para minha casa e resolvi fazê-las em ponto de cruz. Aproveitei os plantões noturnos no hospício para me entreter enquanto esperava ser chamada para alguma intercorrência. Entretanto não evoluiu muito mais que isso.
Para Mônica acabou sendo diferente. Como fiquei boa parte da gravidez de repouso, tive a oportunidade de bordar mais. Minha mãe já não bordava tanto por conta da artrite nas mãos. Contudo depois do nascimento dela, tudo foi novamente guardado e esquecido.
A vida foi se bordando sozinha, sem muito a se pensar e sem a minha interferência. Somente deixando o traço seguir por onde parecia ser o caminho. Trabalhei em muitos locais enquanto a Mônica foi crescendo, fiz mestrado, me encontrei na docência.
Em 2016, procurando por modos de organização pela vasta rede internacional de computadores, me reencontrei com a arte. A criatividade chegou primeiro através da decoração de planners e cadernos; depois veio em formato de cartas e mailart; e decorrido um tempo, como scrapbook. No scrap o bordado veio com força total. Agora é quase uma marca registrada da minha produção poética. Para ser arte da Lina, tem que ter algum bordado, uma linha, uma fita, ou qualquer outro aviamento.
E assim, bordando aqui, bordando ali, a vida segue se constituindo.
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