quarta-feira, 14 de agosto de 2019

A Escolha da Psiquiatria













Ontem foi dia do psiquiatra e me fez pensar em algumas coisas. A escolha profissional é algo que normalmente angustia muito. Ter que decidir o que se quer fazer pra vida toda numa idade tão tenra, é algo que beira a perversidade. Muitos dos meus pacientes ficam extremamente indecisos porque acham que não podem errar, que é uma escolha pra vida inteira. Que se eles se equivocam nesse momento, vão ter perdido um tempo que eles não tem como recuperar. E na verdade não é nada disso. Na verdade isso é só um das "verdades" que o nosso sistema econômico imprimi na nossa cabeça. "Tempo é dinheiro". Então se isso é verdade, se eu perco tempo indeciso na profissão que quero fazer, estou perdendo dinheiro e a oportunidade de ser bem sucedido. Tento trazer leveza pra esses adolescentes e mostrar que é muito melhor "perder" esse tempo agora, do que ficar muito infeliz com a sua escolha no futuro! E que não é proibido trocar de profissão no futuro, não é nenhum pecado! Nós mudamos durante a vida e as nossa percepções também podem mudar. E com isso o que queremos fazer de trabalho.

A minha escolha pessoal de profissão também não foi muito fácil. Sempre fui ligada a área de humanas e artes. Fazia teatro e já tinha recebido algumas indicações de que poderia seguir a carreira. Sempre fui uma pessoa muito comunicativa e extrovertida e adorava ser porta voz dos "fracos e oprimidos", e com isso muita gente achava que tinha que fazer jornalismo. Fiz até alguns testes vocacionais que davam exatamente essa tendência. Mas eu me apaixonei pela loucura, queria entender melhor o sentimento das pessoas e o sofrimento interno delas. Me apaixonei por Freud e pelo que ele dizia sobre as pessoas (claro que  o pouco que conseguia ter acesso e entender com 17 anos, normalmente dito por outras pessoas e não lido na fonte). Cheguei a nesse momento de escolha e angústia a ficar deprimida e iniciar meu percurso na terapia. O que me aproximou ainda mais do tema que tinha guardado lá no fundo como um interesse. Passando por todo esse momento difícil, percebi que realmente aquilo me interessava mais que as outras coisas e me imaginava podendo ajudar as pessoas exatamente como tinha sido ajudada. Ficou somente a dúvida se fazia psicologia ou psiquiatria. Mas a escolha pela Saúde Mental estava feita. Ia trabalhar com a clínica, queria trabalhar com pacientes que pouca gente queria ouvir. Nesse mesmo momento fui tomando conhecimento do movimento de Reforma Psiquiátrica e fui me apaixonando cada vez mais e tendo a certeza de que queria fazer aquilo. Inclusive tendo certeza de que como médica psiquiatra eu ia ter maior poder de ação no sentido do mercado de trabalho e de inserção na reforma, por conta do impacto da fala do médico na nossa sociedade. Queria usar esse poder dado ao médico a favor dos pacientes. 

Entrei na faculdade de Medicina decidida pela Psiquiatria e confesso a você que não foi um percurso nada fácil. Principalmente para uma pessoa que não gosta de ver sangue e nem de fazer nenhum tipo de procedimento! Foi tenso! Mas eu sobrevivi! E quando penso se faria tudo de novo, eu não tenho dúvidas de que escolhi a profissão certa e de que estou no lugar onde deveria estar! Isso não quer dizer que não me imagine fazendo várias outras coisas, porque a gente não se resume a uma só escolha. Mas estou em paz com a que fiz e feliz com os frutos que pude colher e ainda posso pelo caminho. E com meus outros interesses, a gente vai enfiando no tempo de dá e seguindo a vida!

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