quinta-feira, 13 de julho de 2023

História dentro da história

Hoje vim aqui fazer o exercício 2 do livro Como se encontrar na escrita de Ana Holanda. o exercício é contar a história de um desconhecido. Tipo abordar alguém na rua, qualquer um e ouvir a história dele. Só que, teoricamente, eu faço isso todos os dias, faz parte do meu trabalho ouvir histórias o dia inteiro. Resolvi então adaptar esse exercício da seguinte forma: Vou aqui recontar um pedaço de um enredo, a partir de um outro olhar. 

Tenho ouvido um podcast com muitas histórias chamado Não Inviabilize. Esse podcast tem muitos quadros e um deles é o Amor nas Redes. Um desses relatos me tocou muito e pensei em narrar uma parte.

https://open.spotify.com/episode/0q64bY64HFYvknEhN8PL8i?si=_NI2K7VzSeq7wSwn0mV_WQ

Sorte

Mais um dia comum por aqui. Mais um aniversário nesse lugar onde os dias são sempre iguais. Fazer aniversário não faz muita diferença onde eu moro. Na verdade a única diferença que faz, é que quanto mais velho eu fico, mais difícil de sair daqui, de alguém me adotar. Parece que poucas pessoas se importam com isso, mas sei que D. Josefa se importa. Ela é a cozinheira que traz umas comidas diferentes para gente. Não é que não temos  comida, claro que temos. Comemos muito bem todos os dias e a comida é até bem gostosa, mas é sempre a mesma coisa. 
Ela trabalha numas festas também. Num lugar de gente rica e com isso sobra muita comida. Com isso ela sempre carrega com ela um tantão que ela dá para a gente. Ela faz a maior invencionice. Ela toca sanfona, por isso tem aquela mala enorme para colocar a sanfona dentro e ficar protegida. Ela usa esse negócio para colocar a comida que ela traz. Um monte de doces de gente rica, bolo, comidas diferentes que a gente nunca tinha comido. Eu acabo comendo quase tudo, porque só eu sou grande aqui. O resto é tudo pequeno e não come muito doce. No dia de hoje, eu faço doze anos. Fiz um pedido especial para D. Josefá, pedi um pedaço de bolo só pra mim. A gente pode colocar um fósforo e cantar parabéns. Só pra mim. Aqui os aniversários são comemorados todos juntos. São todos do mês num dia só. Então nunca tive uma festa só pra mim. Então estou animado para hora dela chegar. Será que ela conseguiu o bolo? Ou não?
A D. Josefa é muito legal! Além dessa história das guloseimas, ela é muito alegre e sempre me ajuda quando eu estou triste. Ela me fala que amanhã eu vou ter sorte. E eu acho que ela está certa. Pensando nisso eu fico mais feliz. 
Ela chegou! Estava acordado desde antes do dia amanhecer já ansioso com isso! Ela trouxe meu bolo! Ah, que felicidade! Vamos poder cantar parabéns, nem acredito.
 
Parabéns para você, nessa data querida, muitas felicidades, muitos anos de vida! Viva o José Roberto! Viva!

Ué, porque a D. Josefa está saindo daqui? Vou atrás dela para ver. Está chorando. Porque ela está chorando? Será que fiz algo de errado? Será que ela não gosta mais de mim? Será que ela se meteu em encrenca por causa do bolo?
A vida continua passando do mesmo jeito depois do meu aniversário. Todo mundo sendo adotado e nada de alguém me querer. Tem uma sala onde as crianças vão e conversam com as famílias que podem levá-los para uma casa nova! Eu nunca nunca entrei naquela sala. Acho que a sorte que a D. Josefa me desejou ainda não chegou. Onde será que minha sorte está?
Hoje acordei e achei que as coisas estavam meio estranhas. As pessoas aqui estão meio cochichando, não sei bem o que está acontecendo. Quando cheguei para tomar o café da manhã, que susto! No refeitório tem uma grande festa! Tem um cartaz enorme escrito SORTE. Acho que meu dia chegou! Me disseram agora que vou ser adotado! Mas quem? Ninguém falou comigo! Quando eu vi, D. Josefa estava com uma mala na mão e me abraçou muito! Ela vai ser minha mãe! Ela é minha sorte!


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